A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

DÉCADA DE TRINTA

“A estrofe derradeira, merencória...”

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário

 

            Tivemos ainda dois grandes compositores surgidos na década de trinta que deixaremos para falar de suas obras na década de quarenta: Lupicínio Rodrigues e Dorival Caymmi. Deixaremos de falar de verdadeiros poetas do som como Pixinguinha e Nelson Cavaquinho uma vez que o nosso foco principal nestes artigos é as letras e não as melodias. Mas não poderíamos encerrar o assunto da década de trinta sem citar ainda alguns nomes como o compositor mineiro Joubert de Carvalho, autor da canção “Maringá” (que deu nome à cidade e não o contrário) e também de “Tá-hi”, grande sucesso na voz de Carmem Miranda:

“Ta-hi, eu fiz tudo pra você gostar de mim
ai meu Deus, não faz assim comigo não
você tem, você tem que me dar seu coração...”

            Outro compositor que merece ser citado é André Filho, por duas célebres marchinhas: “Alô, Alô, também sucesso com Carmem Miranda e a conhecidíssima “Cidade maravilhosa”:

“Cidade maravilhosa cheia de encantos mil
cidade maravilhosa, coração do meu Brasil...”

            Cândido das Neves, filho do também compositor Eduardo das Neves, deixaria sua marca em “Noite cheia de estrelas” a a belíssima “última estrofe”:

“A noite estava assim enluarada
quando a voz já bem cansada eu ouvi de um trovador...”

            No estilo dor-de-cotovelo, que Lupicínio Rodrigues iria imperar, Vicente Celestino abriu caminho mas depois teve sua obra esquecida, rotulada como brega. Mas algumas como “Ébrio” tornaram-se clássicos:

“Tornei-me um ébrio, na bebida, busco esquecer
aquela ingrata que eu amava e que me abandonou...”

            Talvez poucos conheçam por nome o compositor Raul Torres mas seus versos não faltam nas rodas sertanejas. Um exemplo: “Cabocla Tereza”.

“Há tempo fiz um ranchinho pra minha cabocla morar
pois era ali nosso ninho bem longe deste lugar...”

Este novelo parece não ter fim. Um nome puxa outro e mais outro. Mas vamos encerrando esta década. Uma década maravilhosa em que a música popular viveu um de seus melhores momentos musicais e também poéticos, com o registro bem humorado do cotidiano através das marchinhas, o jeito de amar de uma época através do samba-canção, a sensualidade, o jeito de ser e o amor à arte e à terra através do samba.

 

Júlio Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG