A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

DÉCADA DE TRINTA

“Simplesmente as rosas exalam
o perfume que roubam de ti...”

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário

 

            Nascido de uma família extremamente humilde, Cartola desde muito pequeno conviveu com as rodas de samba. Ainda adolescente começou a trabalhar. Com a morte da mãe e os atritos com o pai acabou expulso de casa. Fixou moradia em um barraco no morro da Mangueira onde ganhou o apelido por utilizar um chapéu-coco para proteger a cabeça do pó de cimento quando trabalhava como pedreiro.

            Aos dezessete anos esteve à beira da morte, doente, desnutrido e abandonado. Foi salvo por uma vizinha, que acabou apaixonando-se por ele e mudando-se para seu barracão.

            Com a mulher e a enteada, Cartola não deixou de freqüentar as rodas. Cada vez mais envolvido com a comunidade acabou ajudando a funda a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira.

“Alvorada lá no morro, que beleza
ninguém chora, não há tristeza
ninguém sente dissabor...”

            Mas a morte da mulher acabou afastando Cartola dos amigos, do samba, da composição. Pelo menos até que viesse um novo e definitivo amor.

“Não quero mais amar a ninguém
não fui feliz o destino não quis o meu primeiro amor
morreu como a flor ainda em botão...”

            “Não quero mais amar a ninguém” foi composta com o amigo Carlos Cachaça. E foi a cunhada deste parceiro, Dona Zica a mulher com quem Cartola viria a se casar e viver até o fim da vida. Para ela escreveria um dos maiores clássicos de nossa música popular, “As rosas não falam”:

“Bate outra vez com esperanças o meu coração
pois já vai terminando o verão enfim...”

            Impressiona na obra de Cartola o altíssimo nível poético de seus versos. Ainda mais quando se leva em conta a origem humilde, a elementar formação escolar. Os versos de Cartola são de fazer inveja a qualquer pós-graduado em Letras.

“Preste atenção, querida,
de cada amor tu herdarás só o cinismo
quando notares estás a beira do abismo,
abismo que cavaste com teus pés...”

O mesmo podemos dizer da qualidade de suas melodias. Não é à toa que era admirado até mesmo por Villa-Lobos com quem participou da gravação de um disco ao lado ainda de Donga e Pixinguinha. Mesmo assim Cartola não conseguiu sobreviver com a música. Caiu no quase total esquecimento. Só na década de cinqüenta, enquanto fazia bico lavando carros que foi reconhecido por um cartunista e sua carreira foi reativada. Arriscando tudo na inauguração do restaurante Zicartola, as coisas começaram a melhorar para o compositor. O momento de resgate do samba e o surgimento de novos nomes como Paulinho da Viola e Martinho da Vila constribuíam para o resgate de antigos valores. Até que em 1974, finalmente Cartola gravaria o seu primeiro disco. O sucesso foi imenso e o disco faturou todos os prêmios de melhor do ano. A partir de então, Cartola eternizou-se como um dos grandes compositores da MPB e sua obra até hoje vem sendo redescoberta com gravações antológicas. Como a gravação de “Acontece” interpretada por Caetano Veloso:

“Esquece o nosso amor, vê se esquece porque tudo na vida acontece
e acontece que o meu coração ficou frio...”

Para encerrar uma frase do sambista Nelson Sargento sobre Cartola:  “Cartola não existiu. Foi um sonho que a gente teve”

 

Júlio Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG