A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

DÉCADA DE TRINTA

“Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor...”

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário

 

Os versos de “Alegria” sintetizam a obra de Assis Valente. Uma busca incansável da alegria de viver através do samba:

“Minha gente era triste, amargurada
inventou a batucada pra deixar de padecer
salve o prazer, salve o prazer...”

Numa vida atribulada de altos e baixos, iniciada na Bahia com rejeição, abandono, discriminação, Assis Valente conseguiu, por seus próprios méritos destacar-se no Rio de Janeiro. Seu sustento era garantido, primeiramente em um laboratório de farmácia, depois fazendo com competência próteses em um consultório dentário.

Não tardaria a aparecer a sua habilidade em recitar e criar versos. A declamação pública de versos de Guerra Junqueiro, poeta bastante censurado pela igreja na época, custaria a perda do emprego. Mas chamaria a atenção de Heitor dos Prazeres que sugeria que Valente escrevesse músicas. Assis encontrou extrema facilidade em colocar versos em melodias de difícil versificação, as mais rápidas. Não tinha o mesmo talento para compor as melodias, muito menos para tocar ou cantar, embora também escrevesse versos em suas próprias melodias simples, alegres, divertidas e populares.

“Beijei na boca de quem não devia,
peguei na mão de quem não conhecia, ai
dancei um samba em trajes de maiô
e o tal do mundo não se acabou...”

Versos como estes de “E o mundo não se acabou” casou-se como uma luva ao estilo Carmem Miranda. Ela seria sua principal interprete, tornando o compositor conhecido nos anos trinta.

Fato engraçado foi o ensaio de Carmem Miranda na casa de Assis Valente para a gravação de “Camisa listrada”. Não havendo espaço suficiente dentro de casa, Assis levou a estrela internacional para ensaiar no galinheiro, lugar mais espaçoso e arejado que a sua sala.

“Vestiu a camisa listrada e saiu por aí
em vez de tomar chá com torrada ele tomou parati...”

            A exemplo de Ary Barroso, iniciou os anos quarenta fazendo um grandioso samba-exaltação, “Brasil Pandeiro”:

“O tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato...”

            Enquanto a música brasileira ganhava prestígio no exterior, o inverso acontecia aqui. O samba começava a perder espaço para ritmos estrangeiros. Assis Valente não se adaptava aos novos modismos. Havia perdido seus interpretes. Carmem Miranda e o Bando da Lua partiram para os Estados Unidos. Não havia outros interpretes que se interessassem por seu estilo. Somando-se a isso, as dívidas do compositor se multiplicavam. Seus últimos versos pareciam premunissores: “Felicidade afogada morreu, a esperança foi ao fundo e voltou, foi ao fundo e voltou, foi ao fundo e ficou.”

            Assis Valente chegou ao fundo do poço. Foi e voltou, foi e voltou. Na terceira tentativa, pôs fim à própria vida. Mas ficou na nossa memória musical. Principalmente no natal. É dele “Boas festas”, a mais famosa marchinha natalina escrita por um brasileiro. Tão alegre na melodia e no ritmo quanto triste na letra:

“... Eu pensei que todo mundo fosse filho de papai Noel
vem assim felicidade eu pensei que fosse uma brincadeira de papel.
Já faz tempo que eu pedi mas o meu papai Noel não vem
Com certeza já morreu ou então felicidade é brinquedo que não tem...”

 

Júlio Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG