A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

DÉCADA DE TRINTA

“Ah, esse coqueiro que dá côco...”

 

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário

            O primeiro contato de Ary Barroso com a música foi sofrido. Desde os dez anos de idade, era submetido por sua tia e tutora a horas de exercícios ao piano, equilibrando um pires nas costas das mãos sob a ameaça de uma vara de marmelo em caso de erro. Mal sabia o menino que esta atitude pouco pedagógica da tia lhe daria condições de sobreviver mais tarde no Rio de Janeiro tocando na noite. Já nesta época, pouco tempo sobrava para dedicar-se à composição. Ary Barroso foi o que hoje chamamos de artista multimídia: compositor, pianista, apresentador de programa de calouros, locutor esportivo, político, entre outras atividades. Em todas elas, deixou a marca de sua personalidade.

            Como locutor, marcou pela parcialidade indisfarçável quando o seu time de coração, o Flamengo, estava em campo. Parcialidade que refletia na evidente diferença de intensidade no toque da gaita no momento do gol de seu time ou do adversário. Atitudes extremas como simplesmente abandonar o microfone seis minutos antes do término de uma partida para comemorar a conquista do campeonato pelo seu time só fez crescer a sua popularidade. Como apresentador de programa de calouros, marcou pelo defesa incondicional à música brasileira e à valorização do autor da música que fazia questão de citar antes de toda música apresentada em seu programa. Foi o primeiro músico a obter êxito exigindo direitos autorais. Como vereador foi decisiva a sua interferência para a construção do Maracanã.

            O tempo escasso para a composição não foi impedimento para que Ary Barroso construísse uma obra consistente e definitiva, bastando citar “Aquarela do Brasil” que por si só já guarda o seu nome para sempre na história da música popular brasileira.

“Brasil, meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro
vou cantar-te nos meus versos...”

            Aquarela era a maior representação do Brasil no exterior, ao lado da cantora Carmem Miranda. A letra que a princípio foi vetada pelo DIP por causa do verso “terra de samba e pandeiro” acabou servindo como luva aos interesses do Governo de Getúlio Vargas: um samba exaltação grandioso, na voz de Francisco Alves, cantor mais popular da época, ressaltando as belezas e riquezas do Brasil. Nesta mesma linha, vieram outras como “Sandalha de prata”:

“Isso aqui ô ô, é um pouquinho de Brasil iá iá,
desse Brasil que canta e é feliz, feliz, feliz...”

            O prestígio de Ary Barroso a partir de Aquarela do Brasil renderia ao compositor o convite de Walt Disney para assumir nos Estados Unidos a direção musical da Disney Product. Mas Ary, após um dia de reflexão deu a resposta negativa ao convite, alegando que não poderia viver na América do Norte, pois lá não existia o Flamengo.

            Se o samba-exaltação de Ary trazia uma visão otimista, bonita e grandiosa do país, um outro poeta se apresentava quando o ritmo era o samba-canção. Um autêntico representante do letrista estilo “dor-de-cotovelo” que teria continuidade mais tarde em Lupicinio Rodrigues, Dolores Duran e Antônio Maria:

“Risque meu nome do teu caderno
pois não suporto o inferno
do nosso amor fracassado...”

            Para um ouvinte menos acostumado ao estilo, ao modo de cantar da época, pode soar brega, exagerado, ultrapassado. Mas os versos de Ary são a expressão poética do amor numa época em que amar sem ser amado era quase uma convenção:

“Sei que falam de mim, sei que zombam de mim
Oh, Deus, como sou infeliz...”

            O poesia dos versos de Ary podem ser evidenciadas mais tarde em novas interpretações como em “pra machucar meu coração” com João Gilberto no auge da bossa-nova:

“Tá fazendo um ano e meio, amor, que o nosso lar desmoronou...”

            Nos anos cinqüenta, algumas mudanças afastaram Ary Barroso do centro das atenções. Contrariava o compositor a invasão do bolero (estrangeiro) contaminando o samba. Contrariava o comércio dominando cada vez mais as rádios. Contrariava também o surgimento da bossa nova com a mistura do jazz também influenciando o samba. Da geração bossa-nova, só considerava Vinícius de Moraes, parceiro com quem escreveu suas últimas composições bem sucedidas.

 

Júlio Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG