A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

DÉCADA DE TRINTA

"A lua cheia, que tanto brilha,
não brilha tanto quanto o teu olhar..."

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário


     Se o Brasil, por muito tempo e ainda hoje ficou conhecido pelo seu futebol, a beleza de suas mulheres e o carnaval, há nisso uma importante contribuição do compositor Lamartine Babo.

     Lamartine tinha imensa facilidade em lidar com a palavra e, por isso era eclético, passeando com a mesma habilidade por vários gêneros. Quem conviveu com este compositor, certamente não escapou de seus trocadilhos e piadas.

     Nos anos trinta, Lamartine Babo era considerado rei do carnaval, autor de clássicos até hoje bem lembrados como "Linda morena", "Grau dez" e da antológica "O teu cabelo não nega" que talvez, escrita hoje, fosse censurada por racismo:

"O teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor
mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero teu amor..."

     No futebol, deixou sua marca não só por sua paixão declarada pelo América, mas pelos hinos que compôs para os principais times cariocas. Conheci o belíssimo hino do Fluminense em 1984 quando o time foi campeão brasileiro. Mais que pelo título, ou pelo time, aquele hino em tom menor me seduziu e, desde então, entre os times cariocas:

"Sou tricolor de coração, sou de um clube tantas vezes campeão
cativa pela sua disciplina o Fluminense, me domina,
eu tenho amor ao tricolor..."

     Se o assunto é festa junina, Lamartine Babo tem sua marca em "Chegou a hora da fogueira", uma das mais poéticas letras do gênero:

"Chegou a hora da fogueira, é noite de São João
o céu fica todo iluminado, fica um céu todo estrelado
bordadinho de balão..."

     Lamartine também produziu clássicos inesquecíveis da MPB como "Eu sonhei que tu estavas tão linda" com Francisco Matoso:

"Olhavas só para mim, vitórias de amor gozei,
mas foi tudo um sonho, acordei..."

     Outra parceria, com Ary Barroso, é muito interessante. A música "No rancho fundo" já havia recebido letra de outro parceiro e começava mais ou menos assim: "Na grota funda, onde morava a Raimunda...". Não agradando dos versos originais, Lamartine criou novos versos e ofereceu ao Ary. Constatando a qualidade dos últimos, Ary Barroso não pensou duas vezes: Poderia perder o amigo e antigo parceiro, mas não poderia perder aquela letra:

"No rancho fundo, bem pra lá do fim do mundo
onde a dor e a saudade contam coisas da cidade..."

     História ainda mais famosa é a do samba-canção "Serra da boa esperança". Lamartine manteve correspondência com uma fã apaixonada de Boa Esperança-MG até que esta romperia o contato antes que houvesse um possível primeiro encontro. Anos depois foi convidado por um dentista de Boa Esperança para visitar a cidade e finalmente ser apresentado a sua fã. Mal podia imaginar Lamartine que a suposta fã apaixonada era o próprio dentista. Uma desilusão amorosa que Lamartine traduziria em versos imortais:

"Levo na minha cantiga a imagem da serra
sei que Jesus não castiga o poeta que erra
nos os poetas erramos porque rimamos também
os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem..."

     A exemplo de outros compositores de sua geração, Lamartine já não gozava do mesmo prestígio no final dos anos cinqüenta, início da Bossa-nova. Em uma de suas últimas entrevistas, Lamartine perguntou ao repórter se a matéria sairia naquele mesmo dia. Ele disse que não, a prioridade era para a entrevista de Tom Jobim que acabava de chegar dos EUA. Era a deixa para mais um de seus trocadilhos: "Ah! Quer dizer que agora estou um tom abaixo?"

 

Júlio Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG