A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

DÉCADA DE TRINTA

"Para que chorar o que passou,
lamentar perdidas ilusões?..."

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário



     Quem nunca se deixou seduzir pelo ritmo simples e marcado, a letra bem humorada e a melodia pegajosa de uma marchinha? Quem nunca dançou num salão entre confetes, lança-perfume e serpentinas? Quem nunca se vestiu de Pierrot, Colombina ou outra qualquer fantasia? Antes de tudo, é preciso ser criança, é preciso ter vocação para a felicidade para saber dar valor a esta brincadeira que por vários anos foi sinônimo de sucesso na música popular brasileira.
    A história da marchinha tem início com a composição "abre alas” de Chiquinha Gonzaga” em 1899. Mas é só na década de trinta que irá viver o seu auge. Os melhores cantores e compositores da época se renderam ao gênero que se não traz letras de grande valor poético, sem dúvida, são verdadeiras crônicas dos costumes de uma época.
    As marchinhas tornaram-se ultrapassadas no final dos anos cinquenta com o início da bossa nova. Tornaram-se perigosas nos anos setenta na ditadura militar que não admitia letras de duplo sentido e praticamente desapareceram com a decadência dos carnavais de salão. Já nos oitenta ameaçou voltar com a regravação de "Balance”, grande sucesso na voz de Gal Costa.
"Ô balancê, balancê, quero dançar com você,
entra na roda, morena pra ver, ô balancê balancê..."
    Esta composição é de um especialista em marchinhas que no decorrer dos anos trinta colecionou sucessos: Braguinha. Conhecido como João de Barro, Braguinha começou como cantor no bando dos Tangarás, ao lado de Noel Rosa. Sua carreira de cantor, porém, durou apenas dois anos. Intuitivamente, sem ter sequer conhecimentos elementares de teoria musical, começou a compor e fez deste ofício o seu vício:
"Chiquita bacana lá da martinica
se veste com uma casca de banana nanica..."
    Quando estava próximo de completar seu centenário de vida, Braguinha costumava dizer a quem questionava sua longevidade: "A vida gosta de quem gosta dela”. Este amor pela vida e esta visão otimista reflete em sua obra de forma evidente. Braguinha é uma lição de alegria, bom-humor e sabedoria:
"A estrela d´alva no céu desponta e a lua anda tonta com tamanho esplendor
e as pastorinhas pra consolo da lua vão cantando na rua lindos versos de amor..."
    Apesar do nome associado às marchinhas, Braguinha foi um compositor bastante eclético. Basta citar o clássico dos clássicos "Carinhoso", letra que escreveu às pressas de encomenda para música de Pixinguinha:
"Meu coração, não sei porquê bate feliz quando te vê
e os meus olhos ficam sorrindo e pelas ruas vão te seguindo
mas mesmo assim foges de mim..."
    É também dele o clássico "Copacabana" em parceria com Dick Farney, música que para alguns estudiosos é percussora da bossa nova:
"Copacabana, o mar, eterno cantor,
ao te beijar ficou perdido de amor..."
    Braguinha foi também pioneiro na composição com sucesso para o público infantil, recuperando cantigas de roda e fazendo versões para as músicas dos clássicos da Disney. Aliás, Braguinha tinha um talento especial para fazer versões das canções estrangeiras para o português. Memoráveis são as versões das canções de Charlies Chaplin, "Luzes da Ribalta" (Limelight) e "Sorri" (Smile). Esta última, ganhou uma interpretação recente e definitiva com Djavan:
"Sorri, vá mentindo a tua dor e ao notar que tu sorris
todo mundo irá supor que és feliz..."
 
Júlio Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG