A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

DÉCADA DE TRINTA

...e o povo já pergunta com maldade:
onde está a honestidade?”

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário



           Falávamos no artigo anterior de Noel Rosa, um de nossos maiores poetas/letristas. Noel não só criou uma obra imortal como também abriu portas, mudou o rumo da história da música popular servindo de ligação entre a classe media, da qual fazia parte e o samba do morro, um novo samba que seria denominado de bossa. Falar de Noel é chover no oceano que sempre cabe mais água. É impressionante a sua habilidade para colocar a palavra certa no lugar certo, com os acentos coincidindo com os acentos da melodia. Tudo isso sem academismos forçados e rebuscamentos desnecessários. Um bom exemplo desta habilidade em versificar é a difícil melodia de “Conversa de botequim” em parceria com Vadico:

"Seu garçon faça o favor de me trazer depressa
uma boa média que não seja requentada
o pão bem quente com manteiga à beca,
um guardanapo e um copo d’água bem gelada..."

            Experiências geniais de integração total entre música e letra foram feitas, comparáveis às que veremos mais tarde com Tom Jobim:

"Mu...mu...mulher em mim fi...fizeste um estrago
eu de nervoso eu tô tô fi...ficando gago.."

            Perdoe-me Noel e o leitor pelo esquartejamento de uma obra que merece ser apreciada na integra. Estes trechos das canções são apenas amostras, gotas que tentam retratar um oceano de criatividade.

            Noel Rosa é daqueles artistas que vale a pena conhecer a obra completa. Vale um belo filme a sua biografia (como não fizeram ainda?) com todos os ingredientes necessários: talento e superação de limites, rivalidades e amores, encontros e desencontros , glória e tragédia.

            Para quem vai iniciar em Noel, sugerimos duas gravações: “Gago apaixonado” que era a preferida de Noel. Segundo ele, porque “meus vizinhos e os seus papagaios não conseguem cantá-la”.  Na gravação original de 1931 impressiona, além da originalidade da letra, o acompanhamento em que o percussionista faz o batuque batendo nos próprios dentes retirando um som muito interessante. Outro detalhe raro nesta gravação é a voz fraquinha e curta do próprio Noel que raramente gravava.

"Meu co...coração tu me entregaste
de...depo..pois de mim tu...tu tomaste..."

            Chico Buarque de Hollanda, talvez o nosso maior letrista de todos os tempos seguiu os passos de Noel em vários aspectos. Um deles, foi mostrar a alma feminina, cantada em primeira pessoa:

"Jurei não mais amar pela décima vez
jurei não perdoar o que ele fez..."

            Existe uma gravação primorosa de Gal Costa, acompanhada pelo violão impagável de Rafael Rabelo de “Último desejo”. Esta música foi ditada ao parceiro mais constante Vadico, por Noel no leito de morte com a recomendação de entregar uma cópia ao grande amor de sua vida, Ceci:

"...e às pessoas que eu detesto,
diga sempre que eu não presto
que o meu lar é o botequim
e que eu arruinei sua vida
que eu não mereço a comida
que você pagou pra mim..."

Júlio Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG