A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

DÉCADA DE TRINTA

“És tudo enfim que tem de belo...”

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário

         Neste artigo, destacaremos aqueles que preservaram o sentimentalismo das modinhas e o saudosismo de Catulo, envolto em valsas, toadas ou em um dos ritmos preferidos das próximas três décadas, o samba-canção. O tema, predominantemente amoroso, traz ainda a linguagem rebuscada, a mulher colocada como num pedestal, quase inatingível, como na letra colocada no clássico “Rosa” de Pixinguinha.

“Tu és divina e graciosa,
estátua majestosa do amor,
por Deus esculturada...”

         Os compositores abusam de metáforas que transformam a mulher amada em um ser quase divino:

“A deusa da minha rua / tem os olhos onde a lua
costuma se embriagar...”

         O pessimismo, o amor impossível, a separação, a traição, o ressentimento são ingredientes certos. Abaixo, um trecho de “Nada além” de Mário Lago:

“Nada além, nada além de uma ilusão,
chega bem, é demais para o meu coração...”

         Todos estes ingredientes ganham um tom ainda mais dramático em canções como “Vingança” de Lupicínio Rodrigues:

“Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada
sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar...”

         Se a letra de música começaria a ganhar status de poema a partir de Noel Rosa, também estes acima citados contribuíram para isto. Sobre o clássico “Chão de estrelas” de Orestes Barbosa, o poeta Manuel Bandeira declarou estar ali o mais belo verso da língua portuguesa:

“E tu pisavas nos astros distraída...”

         Este tipo de música poderia ser comparada, em termos de popularidade e temática e interpretação dramática ao sertanejo comercial de hoje. Incontestável, porém o altíssimo nível poético e melódico destas composições produzidas há mais de setenta anos. Elas são a prova de que uma letra pode ser poética, bem construída e, ao mesmo tempo, popular. Sem saudosismo, é difícil encontrar uma música deste nível fazendo sucesso. E não é por não estarem sendo produzidas, mas por não terem qualquer espaço na mídia. Será que o nível intelectual do povo diminuiu nas últimas décadas ao invés de aumentar? Ou será que, comercialmente, é mais interessante promover a música descartável que , como piada, precisa ser rapidamente substituída por outra mais nova?

 

Júlio Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG