A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

DÉCADA DE TRINTA

"E tu pisavas nos astros, distraída..."

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário
         A década de trinta foi, sem sombra de dúvida, uma das mais fecundas na história da nossa música popular. O cenário era a ditadura de Vargas, o avanço do totalitarismo no mundo desencadeando a segunda Guerra Mundial. O rádio seria consolidado como o principal veículo de divulgação musical. Era o início da "Era do Rádio" que se estenderia até 1950, decaindo com a chegada da televisão. Tocar no rádio era garantia de sucesso. Porém, a concorrência era acirrada. Uma safra de grandes compositores, cantores, instrumentistas surgiria.
         As paisagens urbanas e as belezas naturais seriam descobertas. O carnaval de rua, cada vez mais forte com as escolas de samba e o samba-enredo. No recife, o frevo e o maracatu predominam. Nos salões, as marchinhas com suas letras ingênuas e alegres de Lamartine Babo e Braguinha.

"Linda morena, morena, morena que me faz penar
a lua cheia, que tanto brilha,
não brilha tanto quanto o teu olhar..." <Ouvir>

         As cidades crescem. Para os lados e para cima também. Surgem os edifícios. Cresce a indústria. Crescem também as diferenças sociais. E do morro, o genial Cartola faz a diferença com seus versos refinadísssimos:

"Queixo-me as rosas, mas que bobagem, as rosas não falam
simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti, ai..." <Ouvir>

        É também na década de trinta que surgiria o primeiro grande poeta da música popular: Noel Rosa. Claro, já citamos alguns outros nomes anteriormente como Catulo da Paixão Cearense, mas que não atingiram um nível tão elevado quanto o deste poeta de Vila Isabel, que pode ser colocado no mesmo patamar de Chico Buarque e Vinícius de Moraes. Cronista da vida carioca, Noel abordou em seus sambas temas pouco explorados até então como a política, o trabalho, o cotidiano, as diferenças sociais, o amor, sob a ótica feminina.

"Mas você não sabe que enquanto você faz pano
faço junto do piano estes versos pra você..." <Ouvir>

         A ele, dedicaremos um artigo à parte assim como outros dois letristas geniais: Dorival Caymmi e suas originais toadas praieiras:

"É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar..." <Ouvir>

         E Ary Barroso com a novidade do samba-exaltação que levou a música brasileira para o mundo:

"Ah, esse Brasil lindo e trigueiro é o meu Brasil brasileiro
terra de samba e pandeiro..." <Ouvir>

         Os compositores citados são só alguns de uma geração memorável que transformou a música popular brasileira e eternizou centenas de clássicos que continuam vivos na memória popular

 

Júlio Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG