A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

DÉCADA DE 1920

"...cada toada representa uma saudade."

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário

 

    O mundo estava balançado pelos efeitos da Primeira Grande Guerra Mundial. A economia Alemã estava arruinada e também a economia americana estava em crise. Ditadura fascista na Itália e a Rússia sob o poder de Stalin. No Brasil, as revoltas tenentistas, os movimentos de insurreição contra a República Velha, a coluna Prestes em São Paulo.

    Os movimentos de vanguarda movimentam a cultura nacional. Nesta década, ocorre a memorável semana de Arte Moderna de 22. O escritor e musicólogo "Mário de Andrade" compôs a bela toada "Viola quebrada":

"Minha viola gemeu, o meu coração estremeceu..." <Ouvir>

    A música clássica vive um grande momento com o sucesso internacional da pianista Guiomar Novais e da soprano Bidu Sayão. Isso sem falar no nosso compositor maior em plena atividade, Heitor Villa-Lobos. Ele que também compôs modinhas como "Azulão" em parceria com o poeta Manuel Bandeira:

"vai azulão / companheiro vai /
vai ver minha ingrata /
diz que sem ela / o sertão não é mais sertão." <Ouvir>

    É o momento em que a música popular toma impulso para o grande desenvolvimento que estaria por vir na década seguinte. Para isso, colaboraria o surgimento do gramofone, das primeiras vitrolas elétricas, microfones, alto-falantes, as orquestras de cinema mudo, as jazz-bands e as primeira gafieiras.

    Neste panorama surgem no Brasil as primeiras escolas de samba. As primeiras favelas no Rio de Janeiro favorecem também o surgimento do "samba do morro". Enquanto sobram nomes de peso para compor melodias (Pixinguinha, João Pernambuco, Canhoto, Zequinha de Abreu...) os grandes poetas da música popular só viriam mesmo na década seguinte. Sinhô seria um dos letristas mais prestigiados neste período autor de "amar a uma só mulher", "gosto que me enrosco" e a eterna "Jura":

"Jura, jura, jura pelo Senhor,
jura pela imagem da Santa Cruz
do Redentor pra ter valor a sua jura..." <Ouvir>

    Outros destaques foram Freire Júnior, Eduardo Souto e Luiz Peixoto, este último, autor do primeiro samba-canção, gênero que dominaria as décadas seguintes:

"Ai, yô yô tenha pena de mim, meu Senhor do Bonfim pode até se zangar
se ele um dia souber que você é que é meu yô yô de yá yá ..." <Ouvir>

    Foi também na década de vinte o impulso inicial para que a música sertaneja ganhasse espaço nos grandes centros urbanos. "Tristeza de Jeca" de Angelino de Oliveira, até hoje incansavelmente regravada é considerada o primeiro grande sucesso sertanejo:

"Nestes versos tão singelos, minha bela, meu amor
pra você quero contar o meu sofrer, a minha dor..." <Ouvir>

    Tristeza do Jeca abriu as portas para outras toadas que falavam das coisas do campo, origem da grande maioria da população urbana que logo se identificou com as letras:

"Deixa a cidade formosa morena, linda pequena e volta ao sertão..." <Ouvir>

    Até mesmo o gênero infantil teve um representante. O poeta Olegário Mariano em parceria com Joubert de Carvalho, compôs alguns clássicos do gênero como "Cai, cai balão" e "Tutu marambá":

"Tutu marambá não venha mais cá
que o pai da menina te manda matar..."
<Ouvir>

 

Júlio Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG