A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

DÉCADA DE 1910

"Ai que saudade do luar da minha terra..."

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário

 

    Até o século XX, a história da música mostra que sempre existiram autores anônimos, tanto na música popular como na música clássica. Mesmo não havendo o interesse comercial em relação à música, esta atitude de não assinar a composição não deixa de ser um ato de desprendimento e de humildade do autor. Quem deixaria hoje de assinar Greensleaves ou Romance? Quem não gostaria de deter os direitos autorais de "Peixe vivo" ou "se esta rua fosse minha"? Hoje, qualquer três notas ou duas rimas que o sujeito junta, quer logo se informar de como registra a tal criação em seu nome, com medo de ser assaltado na próxima esquina e fatalmente deparar-se com ela, a "obra-prima", na boca do povo, no topo das paradas de sucesso.

    No artigo da semana passada, vimos a polêmica em torno da auditoria do samba "Pelo telefone". Sinhô, um dos envolvidos na confusão, dizia: "samba é como passarinho, está no ar, é de quem pegar." Não foi um caso isolado neste período, nem privilégio do samba. Um clássico ainda mais popular de nossa música teve sua autoria questionada. Trata-se da toada "Luar do sertão", lançada em 1914.

    Os versos são incontestavelmente de Catulo da Paixão Cearense, maior poeta da música nas duas primeiras décadas do século XX. Quanto à melodia, Catulo sempre afirmou ser o único autor, ignorando a participação de João Pernambuco. Vale lembrar que Catulo, apesar de tocar muito bem violão, sempre dependeu de bons parceiros para construir as melodias que ele, com maestria, cobria de versos.

    João Pernambuco era um exímio violonista, apesar de semi-analfabeto, tinha um domínio invejável do instrumento e recolheu o tema da melodia do folclore nordestino. Apesar de não obter o recolhimento judicial da autoria, mais que isso, João Pernambuco teve o reconhecimento público e a defesa de Heitor Villa-Lobos e Almirante.

    O fato é que, com o início da comercialização da música, os autores anônimos foram desaparecendo. Todos queriam assumir a paternidade de versos e melodias sem dono.

    Numa década em que o mercado não acompanhava ainda o grande salto tecnológico causado pela possibilidade de gravação, o choro se firmava como o principal gênero e o samba começava a dar o ar da graça. Alguns clássicos como "Lua branca" de Chiquinha Gonzaga, "Tico-Tico no fubá" de Zequinha de Abreu, "Rosa" de Pixinguinha e "Odeon" de Ernesto Nazareth faziam sucesso ainda sem letra. O letrista de maior prestigio da época ainda era Catulo da Paixão Cesarense com seus versos simples e ingênuos que tinha a capacidade de ficar. Luar do sertão, de 1914, é até hoje uma de nossas músicas mais populares. A melodia também simples, ajudou na eternização desta toada. Catulo toca no íntimo do povo brasileiro ao dizer de forma direta da saudade do sertanejo de sua terra e de sua dificuldade em aceitar a frieza do mundo urbano, um mundo abalado pela primeira grande guerra mundial.


"A gente fria desta terra sem poesia
não se importa com esta lua, nem faz caso do luar
enquanto a onça, lá na verde capoeira
leva uma hora inteira vendo a lua a meditar..."


    Esta nostalgia é uma herança que carregamos. É interessante perceber esta saudade até mesmo naqueles que já nasceram na cidade grande, vendo neste sertão idealizado, uma terra prometida, uma possibilidade de fuga, de exílio, longe até mesmo dos conflitos existenciais.

"Não há, oh gente, oh não, luar como este do sertão..." <Ouvir>

 

Júlio Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG