A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

DÉCADA DE 1910

Um samba pelo telefone

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário

 

    O cenário era o terreiro da casa da Tia Ciata no Rio de Janeiro. Uma inciada no santo na Bahia. Lá se reunião com freqüência os melhores compositores da época para "brincar o samba" em festas que duravam até uma semana. Só para citar os mais conhecidos, Pixinguinha, Donga e Sinhô. Um ponto de encontro que misturava classes sociais, gente do morro e do asfalto em torno do samba. Mas até ali havia uma separação musical. Na sala era tocado o choro (para despistar a polícia), enquanto que o samba (coisa de marginal) rolava solto, escondido no quintal.

   E foi ali que nasceu a mais polêmica composição que se tem notícia na história da música popular brasileira.

   Ao que parece, somando-se às várias versões de sua origem, trata-se de uma produção coletiva, uma verdadeira colcha de retalhos, costurada em noites sucessivas nas reuniões da casa da Tia Ciata. Empolgado com o sucesso daquele improviso na roda, mesclado com a música folclórica, cantado a muitas vozes, um deles, Donga, que também teria uma participação no samba, registrou-o com o título de "Pelo Telefone" e a designação de samba.

   São tantas as variações da letra que seria impossível citá-las em espaço tão curto. O fato é que ela é, em síntese, uma crítica bem humorada ao chefe da polícia carioca que proibia verbalmente a prática do jogo, mas, na verdade, fazia vista grossa. Este foi o refrão gravado:

"O chefe da polícia / pelo telefone/ manda-me avisar /
que na Carioca / tem uma roleta/ para se jogar..."
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   Embora, nesta época, mal se discutisse direito autoral, o tal registro provocou tanto barulho quanto o sucesso da música no carnaval de 1917. Numa manifestação de protesto, uma paródia foi feita em cima da mesma melodia, contestando a autoria e criticando e a atitude de Donga:

"Ó que caradura / de dizer nas rodas / que este arranjo é teu!
É do bom Hilário / e da velha Ciata / que o Sinhô escreveu.
Tomara que tu apanhes / pra não tornar a fazer isso
Escrever o que é de outros / sem olhar o compromisso..."

   Sobre a letra, a versão mais aceita é de que os versos tenham sido basicamente escritos pelo jornalista Mauro de Almeida, embora ele próprio tenha contestado esta afirmação, dizendo que apenas juntou trovas populares já cantadas na roda organizando-as na melodia.

   A polêmica deste samba não se encerrava em sua autoria e tema delicado. Donga também afirmava ser este o primeiro samba gravado e talvez o seu grande sucesso tenha colaborado para a afirmação desta crença. Na realidade, já foram encontradas por historiadores, gravações anteriores que trazem no selo a designação de samba. O ritmo , na realidade, já vinha se configurando no século anterior, muito antes dos primeiros registros em disco.
   Toda esta polêmica só contribuiu para a imortalização deste delicioso samba que, vez por outra é relembrado. Recentemente, Gilberto Gil fez uma paródia muito feliz de “Pelo Telefone” que virou “Pela Internet”. E quis também ser o pioneiro ao lançar a música em primeira mão, com exclusividade na rede de computadores antes mesmo de lançá-la em CD. Lembrando que na época o telefone causava o mesmo fascínio que hoje causa a internet e o celular parodiados por Gil, o que torna a comparação bastante apropriada. Quanto ao jogo:

"O chefe da polícia carioca avisa pelo celular
que lá na praça onze tem um vídeo pôquer para se jogar..."

Júlio Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG