A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

Década de 1910

"Não há, oh gente oh não, luar como este do sertão..."
Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário

     Uma década triste para a humanidade. O mundo vivia a sua Primeira Grande Guerra que mudaria os rumos da história. Mas enquanto as bombas explodiam, no Brasil surgiam as primeiras escolas de samba. Falávamos nos artigos anteriores dos ranchos carnavalescos, das brincadeiras de mau gosto dos entrudos e dos cordões fantasiados. Tudo isso, obviamente foi um prelúdio para o surgimento destas escolas. A primeira delas foi a “Deixa falar” no Largo do Estácio. Nesta mesma época começa a surgir também o samba-do-morro, juntamente com as primeiras favelas. Também em São Paulo começam a surgir as primeiras manifestações populares voltadas para o samba.
     Foi um tempo de grande valorização da música instrumental. Talvez pela invenção das vitrolas, dos gramofones, do cinema mudo, tudo isso tenha incentivado a música orquestral. A construção dos dois maiores teatros do Brasil, os municipais do Rio e de São Paulo também favoreceram enormemente para a montagem de espetáculos.
     Não podemos deixar de citar também neste período as primeiras gafieiras e as jazz-bands. Assim, entre os maiores compositores populares desta época destacam-se principalmente os músicos e raros são os letristas. Muitas das músicas cantadas eram letras que faziam parte do folclore popular:

"O meu boi morreu, que será de mim
manda buscar outro, Maninha, lá no Piauí..."

     Como havia um grande número de músicas instrumentais, o processo mais comum de composição de letras era aproveita a música já pronta. Assim foi feito com uma das letras mais populares da época. “Flor do mal” foi escrita em cima de uma música já conhecida “Saudade eterna”. O letrista, Domingos Correa escreveu esta letra em uma casa de chope em um momento de desespero e desilusão amorosa, pondo fim a sua vida logo depois:

"Oh! Eu me recordo ainda / desse fatal dia /
em que tu me disseste, Arminda, / indiferente e fria /
eis do meu romance o fim...".

     Os nomes de maior destaque neste período foram o poeta Catulo da Paixão, autor dos veros de “Luar do sertão” além dos sambistas Sinhô e Donga, protagonistas da polêmica autoria de “Pelo telefone”. Destes, falaremos nos próximos artigos.

Júlio Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG