A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

"Oh, abre alas que eu quero passar...
"
Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário


Nascem o choro, o maxixe e a primeira marchinha carnavalesca

   Estamos na segunda metade do século XIX, transição do Império para a República. Fim do Império, fim da escravatura, fim do século. É criado o primeiro fonógrafo que prenuncia a evolução tecnológica que estaria por vir, tornando possível a gravação e imortalização do som musical.
  Época dos ranchos carnavalescos, dos desordeiros "entrudos", da guarda nacional, auge das bandas de música e fanfarras. No Recife, nascia o frevo, que mais tarde seria conhecido como a dança das multidões. Surgem no Rio de Janeiro os teatros de revista, mistura crítica, irreverente e humorística de música, teatro e dança.
 
Outros ritmos, além do Lundu e da Modinha passam a integrar o cancioneiro popular. Ritmos populares na Europa como a polca são difundidos. Surge o Maxixe, considerado o primeiro ritmo genuinamente brasileiro, na verdade, uma maneira diferente, exageradamente requebrada de dançar a polka (da Boêmia), a Habanera (cubana) e o tango (argentino). Número obrigatório nos Teatros de Revista, seria, a exemplo do lundu, alvo de preconceito e resistência. Vale lembrar que a escravidão acabou, mas não o preconceito e muito menos a disparidade social entre brancos e negros. O surgimento de ritmos importantes nas baixas camadas da sociedade seria um fenômeno constante em nossa música, com uma resistência inicial e aceitação posterior acompanhada de algumas modificações. Assim, disfarçado de tango brasileiro, o maxixe conquistaria seu espaço e a simpatia de compositores respeitados e atravessaria o Atlântico no início do século seguinte, chegando à Europa.
 
Pouco adaptado a letras, o maxixe teria vida curta, dando lugar, no século seguinte a um de nossos ritmos mais importantes: o samba. Nas poucas letras criadas para este ritmo, podemos perceber a mesma malícia vinda do Lundu e repassada ao samba:

"No maxixe requebrado
nada perde o maganão!
Ou aperta a pobre moça
Ou lhe arruma um beliscão!"

  O século XIX não terminaria sem a afirmação de outro de nossos gêneros mais importantes: o Choro. Não era propriamente um ritmo. Era uma maneira "chorosa" de indecisão propositada e preguiçosa de cantar e tocar uma valsa, uma polca ou um schottsh, por exemplo. Era comum nesta época a seresta no fim de noite. Seria o preferido dos funcionários públicos, comerciantes de origem negra, recém saídos do regime de escravidão. Embora fosse essencialmente um gênero instrumental, incompatível com o texto poético pelo virtuosismo das notas, alguns choros ganharam versos dos melhores letristas da época.
 
O principal divulgador do gênero, o mulato Joaquim Callado, era um virtuoso flautista, que chegou a ser condecorado ainda no período imperial por Dom Pedro II com a Ordem da Rosa. Sua polca de maior sucesso, "Flor amorosa" ainda hoje é muito tocada por grupos de seresta. No início do século XX ela ganharia letra de Catulo da Paixão Cearense:

"Flor amorosa, compassiva, sensitiva, vem porque
é uma rosa orgulhosa, presunçosa, tão vaidosa,
pois olha a rosa tem prazer em ser beijada, é flor, é flor..."

  Finalmente, abrindo alas para o século que seria marcado pela revolução sexual, Chiquinha Gonzaga, uma mulher à frente de seu tempo, seria um dos grandes nomes desta fase que definitivamente inaugura a música popular brasileira. Em 1899, iria compor "Oh abre alas", primeira marchinha carnavalesca. A letra é extremamente simples, direta, ingênua, mas já atravessou mais de uma centena de carnavais e até hoje é uma das marchinhas mais executadas:

"Oh abre alas que eu quero passar
oh abre alas que eu quero passar
eu sou da lira não posso negar,
eu sou da lira não posso negar..."

<Ouvir...>

 

Júlio Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG