A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

MODINHA OU LUNDU?

(BRASIL IMPÉRIO)

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário


     Recebida com música, chega em 1808 a família imperial para o Brasil dando um impulso na evolução musical do país. Sabemos que D. João era apaixonado por música e a comemoração de seu casamento com Carlota Joaquina foi marcado pelo primeiro desfile de carnaval na Guanabara. Segue-se, a partir daí, o primeiro desfile de máscaras, copiando o de Veneza, para a alta sociedade carioca e a chegada da polca invadindo os teatros e ruas. Embora novos ritmos chegassem ao Brasil, a base seria ainda o Lundu e a Modinha.
     Não faltavam ilustres compositores: O Marquês de Sapucaí que hoje dá nome ao famoso sambódromo.

"Desgraçadas violetas
a fim prematuro correm
pobres flores, também, sentem,
também de saudades morrem!";

     O próprio imperador Dom Pedro I gostava de cantar e tocar modinhas. Isto sem falar no maior compositor clássico das Américas no século XVIII: Carlos Gomes. Quem assistiu a minissérie da TV Globo "Chiquinha Gonzaga", certamente se emocionou com a cena em que Carlos Gomes e Chiquinha Gonzaga saem pelas ruas seguidos por uma pequena multidão, cantando "Quem sabe"; de 1859:

"Tão longe, de mim distante
onde irá, onde irá teu pensamento...";

<Ouvir...>

     A música popular começaria, a partir da Modinha e do Lundu a se configurar. Ambos fundiram-se a outros ritmos até praticamente desaparecerem no século seguinte, sendo esporadicamente resgatados. Juca Chaves, acompanhado de um Alaúde, ainda hoje, início do século XXI, compõe e canta modinhas. "Por quem sonha Ana Maria", gravada em 1960 é uma de suas modinhas que fez muito sucesso:

"Na alameda da poesia
chora rimas o luar
Madrugada... e Ana Maria
Sonha sonhos cor do mar
Por quem sonha Ana Maria
Nesta noite de luar?";

     Algumas modinhas atravessaram os séculos e não raramente são resgatadas, seja na memória popular, seja em regravações:

"Tu não te lembras da casinha pequenina
onde o nosso amor nasceu..."


<Ouvir...>

     Percebe-se aí o forte lirismo, com o tema amoroso, acentuado pelo período Romântico na Literatura, que se refletirá mais tarde em vários outros gêneros musicais que estariam por surgir. Deste período, muito pouco ainda pôde ser preservado de compositores como Cândido Inácio da Silva que seguramente foi bastante popular.

     O lundu, já citado anteriormente, era uma dança de rua praticada pelos negros. Regado a muito álcool e suor, as umbigadas, os remelexos de quadris, característicos da dança, eram escandaloso para a época e muitas vezes reprimidos. Era, ao mesmo tempo, porém, muito sedutor. Poderia ser transformado. Surge assim o lundu de salão que ganha popularidade na alta socidade, tornando-se canção solista. As letras ganhariam um pouco do lirismo da modinha.

     Apesar de perder um pouco de suas características, o lundu conservaria, em dose mais moderada, toda a sua sensualidade e caráter cômico. Isto continuaria evidenciado também em letras como esta de Xisto Bahia no antológico lundu "Isto é bom" que entrou para a história da música popular como a primeira gravação em disco feita no Brasil na primeira década do século XX:

"Iaiá, você quer morrer?
quando morrer, morramos juntos
que eu quero ver como cabem
numa cova dois defuntos."

     Pouco ficou da obra de Xisto Bahia mas há uma unanimidade entre os estudiosos da história da música da sua importância como compositor e interprete tanto de modinhas como de lundus. Um talento inegável que não conhecia sequer as notas musicais. Muitos afirmam ter sido ele o maior cantador de modinhas do século XIX.

Júlio Saldanha Teixeira
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG