A PALAVRA CANTADA NO BRASIL COLÔNIA

Século XVI E XVII – A MISTURA

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário


     Muito antes de se falar em globalização, o Brasil já viveu este processo na formação de sua cultura. Falamos nos textos anteriores dos três principais povos formadores de nossa cultura, mas podemos reconhecer, nitidamente a influência dos espanhóis no repertório gaúcho, dos árabes no nordeste, dos franceses no repertório infantil, dos russos...
     Ainda no período colonial, seria iniciada a mistura entre estas culturas. Esta mistura, de forma alguma se deu de maneira igualitária e amistosa. A imposição da cultura portuguesa foi firme e sistemática. Os Jesuítas logo perceberam a sensibilidade dos selvagens à música e aproveitaram disto para a catequização. Textos católicos foram adaptados às melodias indígenas.
     O ritmo cateretê também se fundiu ao cantochão e foi incorporado às festas de vários santos. Padre José de Anchieta trabalhou muito neste sentido. Porém, esta produção não chegou aos nossos dias. Cantos gregorianos com textos bíblicos em latim também foram trazidos, influência que ainda hoje se faz notar na nossa música religiosa.
     
Mas, e a música profana? Mesmo antes da mistura de raças que não aconteceu tão rapidamente, as músicas produzidas por portugueses e descendentes no Brasil já sofriam modificações por influência da terra: a saudade da pátria distante, as dificuldades da colonização, a tristeza, a solidão. Ganhariam assim, um tom ainda mais melancólico.
     
Até 1780, quase toda produção deste período foi anônima ou folclórica e muito pouco chegou até os nossos dias. Deste período, a história preservou nomes ligados à religião que se dedicaram a fazer além de música religiosa, modinhas e até lundus.
     
Já citamos Frei Francisco de Vacas e Padre Anchieta, nomes marcantes do século XVI. No século XVII, destacou-se o nome de Gregório de Matos, consagrado escritor baiano, responsável pelos primeiros registros do ritmo africano Lundu. No livro "Boca do Inferno" de Ana Miranda (vale a pena ler), podemos ver a capacidade deste poeta em retratar e modificar o seu tempo através de seus versos, muitos deles musicados. Gregório de Matos chegou a ser chamado de o "Homero do Lundu".Como já foi dito, os ritmos africanos sugerem o satírico, o erótico, e o Lundu encaixou como uma luva nos versos obscenos de Gregório de Matos que os cantava acompanhado de uma viola de arame para seduzir escravas e criticar a sociedade.

"De dous ff se compõe esta cidade a meu ver: um furtar, outro foder."

     Mais tarde, o Lundu tornaria a dança preferida dos burgueses e aristocráticos, apesar da censura da igreja, da maioria dos intelectuais e da sociedade de uma forma geral que consideravam a dança, pela sua sensualidade, escandalosa e ofensiva aos bons costumes. Era com versos como esses de Gregório de Matos, gravado nos anos setenta por Caetano Veloso, que o poeta baiano cantava na Bahia colonial:

"Triste Bahia, oh quão dessemelhante
estás e estou do nosso antigo estado.
Pobre te vejo a ti, tua a mi empenhado
Rica te vejo eu já, tu a mim abundante."


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Júlio Saldanha
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG