A PALAVRA CANTADA NO BRASIL COLÔNIA

"Quem canta os males espanta"

(poética dos negros)

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário

"Vida de nego é difícil, é difícil como o quê..."
(Dorival Caymmi)

     Chegam os primeiros escravos africanos para o duro trabalho nas lavouras de algodão, tabaco e cana-de-açúcar. Longe de trazer simplesmente a força de sua mão-de-obra, o negro africano traz também a sua música que, apesar de toda a subordinação, não pôde ser totalmente reprimida. Uma influência fortíssima é evidente em nossos ritmos mais populares.

     O ritmo africano influenciou não só a música popular brasileira, mas de todo o mundo. Os ritmos mais importantes vieram da África. Enquanto a harmonia musical, própria dos Europeus se refere à razão e a melodia musical, habilidade dos índios e dos orientais se refere ao coração, o ritmo está diretamente ligado ao corpo, ao movimento, ao sexo, isto, evidentemente, se reflete no texto, trazendo para o Brasil, ingredientes fundamentais em nossa forma tão brasileira de cantar.

     Não é difícil para nós, imaginarmos o que acontecia nas senzalas após um penoso dia de trabalho. Antes de ser uma preocupação de preservar-se culturalmente, estes homens deviam buscar na música uma forma de entretenimento, de alívio das tensões causadas pelo estado de escravidão.

     Dos cantos afros, conservamos a acentuação forte, os termos sonoros e flexões de sintaxe e dicção que influenciaram as melodias. Formas diferentes como o refrão fixo com estrofe improvisada. Ou verso único seguido de refrão curto. O tema amor, longe dos queixumes lusitanos, é tratado com humor e extrema sensualidade, embalado por ritmos condizentes. Vem daí parte do nosso jeito debochado e satírico de encarar inclusive os temas mais sérios da nova realidade encontrada nesta terra. Características que a nossa música popular jamais perderia. Como neste Lundu contagiante de Geraldo Vianna e Pixinguinha, gravado em 1950:


"Aquicô no terreiro o peru adie
faz inveja pra gente que não tem mulhê
No Jacutá de preto velho
Há uma festa de Yaô
Oi, tem nega de Ogum
De Oxalá, de Iemanjá
Mutamba de Oxossi é caçador
Ora viva nana, nana borokô
Yô, yô, yô, yô, oh
No terreiro de preto velho, yayá
Vamo sarava
A quem, meu pai?
Xangô..."


<Ouvir...>

Júlio Saldanha
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG