A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

VERSO À VISTA

(a poética dos portugueses)

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário

    Na longa e penosa viagem que culminou no descobrimento do Brasil, o que cantariam os marinheiros?
Que músicas e instrumentos trariam em suas bagagens?
E, afinal, que versos entoavam em seus cantos?

    De todos os povos que influenciaram nossa música, a marca mais forte é, sem dúvida, dos portugueses, sobretudo nas letras. Isto se explica facilmente por ser este o povo dominador, naquele momento, impondo também sua cultura e língua. E a música portuguesa tinha seu valor. E seria usada como forte instrumento para sedução dos índios que se encantavam com aquela forma harmonizada de cantar.

    Além da música, toda a literatura portuguesa, com o tempo, seria trazida numa infinidade de textos. Textos que trariam toda a informação de uma rica cultura ocidental, desde os clássicos gregos, em todas as suas formas e figuras de linguagem. "Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luiz de Camões..." já dizia Caetano Veloso.

    Porém, seria preciso a mistura das culturas para que surgisse algo novo e original que pudesse ser considerado brasileiro... Na música popular portuguesa, sabemos a predominância do tema amoroso. Tendência que será conservada até os nossos dias na maioria de nossas canções.

    Apesar dos temas brasileiros perderem a "pureza" original dos temas portugueses, é inegável a forte influência ainda hoje, refletida também na métrica e nas rimas vindas das modas e fados lusitanos. Duas canções contemporâneas retratam bem este sotaque original português:

"Ai, esta terra um dia, há de cumprir seu ideal.
Há de tornar-se um imenso Portugal..."
(Fado tropical "Chico Buarque" 1977)

<Ouvir...>

    A segunda, baseado no clássico poema "Mar Português" de Fernando Pessoa:

"Navegar é preciso, viver não é preciso..."
(Os Argonautas "Caetano Veloso" 1969)

<Ouvir...>

    Vale salientar que no primeiro século após o descobrimento, por vários motivos, não havia ainda uma música popular, menos ainda brasileira. Deste período, os livros de história da música, infelizmente, não preservaram música nem versos, apenas o nome do músico Frei Francisco de Vaccas, que tocava viola renascentista em "forma de oito" na Bahia e conseguiu relativo êxito dentro das possibilidades da época. Com sua boa voz, gostava de cantar modas profanas pela noite, o que, certa vez, incomodou o sono do próprio bispo e rendeu-lhe, além da transferência de cidade, a fama de primeiro boêmio em terras brasileiras.

    A moda, que no Brasil ganharia o nome no diminutivo, modinha, seria o principal gênero musical herdado dos portugueses, forte no Brasil até o início do século XX.

Júlio Saldanha
Regente da Orquestra de Violões Anita Salles
Membro da Academia de Letras de Pará de Minas MG