A PALAVRA CANTADA NO BRASIL

SÉCULO XVI

Quem encobriu o canto do Brasil?

Júlio Saldanha
anaterra@uai.com.br
Jornal diário

 

   Ao contrário dos tradicionais livros de história, não conseguiríamos dar início a este passeio cronológico por um tema da cultura brasileira começando pelo momento do descobrimento, data oficial do início da história do Brasil. É inegável que já devia existir, muito antes, uma riquíssima produção na poesia musical dos índios. Que palavras eles entoavam em seus rituais e festejos religiosos? Qual a sonoridade destas palavras no idioma nativo? Quais eram seus temas preferidos? Em que momentos cantavam? Cantavam em coro? Homens e mulheres? Crianças? Em uma única voz ou duetos? O que sabemos disso, de concreto, é o que podemos observar das poucas reservas indígenas que sobreviveram ao extermínio e à aculturação imposta pela colonização. Esta cultura não só foi massacrada, mas também extirpada de nossa história. Será?
   Cremos que não. Acreditamos em uma memória genética e em nosso sangue, conservamos a cultura indígena. Sabemos que os temas cosmológicos eram comuns nos cantos indígenas como nestes trechos dos cantos Tupinambás:

“Enopo Pa’i Kuara ñe ‘e”
(escute a palavra do divino xamã do sol)
“Canindé jub, Canindé jub, eyra oaê”
(Canindé amarelo, Canindé amarelo, tal qual o mel)

    Mário de Andrade afirma que são de influência indígena, certas formas poéticas usadas ainda hoje no nordeste. Um canto com som anasalado, comum em quase todo país, também é herança dos Guaranis. Melodias quase faladas, o ritmo discursivo, livre das limitações do metro e do compasso...
    Podemos observar neste pequeno trecho citado acima uma característica marcante na poesia indígena que é a repetição. A forma destes cantos, geralmente se caracteriza pela existência de versos seguidos de um refrão curto, geralmente de uma só palavra. É o que podemos observar nesta canção do folclore paulista:

"Você gosta de mim, oh Maninha
eu também de você, oh Maninha
vou pedir aos seus pais, oh Maninha
para casar com você, oh Maninha."

    Embora com características indígenas na forma, já encontramos, nesta música folclórica, uma forte influência portuguesa: o tema amoroso. Infelizmente, do dialeto original, apenas palavras isoladas, pudemos conservar. Embora modesta, a presença do idioma indígena no nosso vocabulário predominantemente português, sobrevive nos temas. A alma indígena está presente sim em nossos textos, principalmente quando falamos do divino associado à natureza. Amor e respeito à natureza que seria uma constante na obra de nossos dois maiores compositores:
Heitor Villa-Lobos e Antônio Carlos Jobim.

"Uirapuru, uirapuru, seresteiro cantador do meu sertão
uirapuru, uirapuru, ele canta as mágoas do meu coração."

<Ouvir...>

   Caetano Veloso tem uma composição que sempre que ouvimos, visualizamos facilmente uma tribo indígena. A letra, o compasso, a melodia, de onde tirou Caetano?

"Todo dia o sol levanta e a gente canta o sol de todo dia
finda a tarde e a terra cora e a gente chora porque finda a tarde
quando a noite a lua mansa e a gente dança venerando a noite..."

<Ouvir...>

Até a próxima semana com mais novidades.